domingo, 7 de novembro de 2010

Bebendo os vivos e os mortos

Aniversário da Patrícia. Para nós, seus amigos, é a Ora, que alguém disse um dia se tratar de oráculo. Pegou e ela aceita. Ela sempre pede para não comemorarmos no dia dois de novembro. Diz que fica dividida entre brindar aos que vieram ou chorar por aqueles que se foram.

Sempre respeitamos. Combinamos para o dia seguinte. A Ora escolheu aquele bar alternativo de sempre. Diz gostar dos “bichos-grilo”. De fato é muito bom o lugar. Um som de primeira: com muito blues, jazz e às vezes um rock and roll. Fiquei com o papel de chegar mais cedo para segurar uma mesa.

Lá pelas nove e meia, foi chegando o pessoal. Todo mundo brindando, falando do dia que tinha vivido e, invariavelmente, já tinham compromisso para aquela noite. Uma dose aqui e outra ali, logo o grupo foi se reduzindo.

Ao meu lado estava sentada a Santinha - apelido que recebeu do pai quando criança. No princípio a mãe odiava. Um dia a menina se vestiu para a primeira comunhão e lhe colocaram um lenço branco na cabeça com aquele vestido com cara de roupa de padroeira. Resignou-se, a mãe, emocionada. Desde então é a nossa Santinha. Fomos trocando as impressões de dias que não nos víamos. Ela é agente da delegacia da mulher. Quando ela recebe os batedores de mulher, o apelido fica meio sem sentido. Contou-me alguns casos e logo lhe dei razão.

Por volta das onze horas e meia, o grupo se reduziu a mim, Ora e Santinha. Já um pouco alegres, vinham me contando estórias sobre os seus bichos de estimação. Verdadeira família. Santinha vive com três gatos e Ora com suas duas cadelas. “É unanimidade, eles entendem tudo o dizemos e fazemos. Inclusive quando estamos tristes. Ficam preocupados e querem nos animar de qualquer jeito”. A Ora ainda disse “só não falam para não trabalhar”.

Daí a pouco chegou uma retardatária. Era a Roca. Gaúcha risonha, divertida e com aqueles olhões filmando tudo. Eu não a conhecia. Apresentaram-me. Ela cochichou algo para a Ora e me olharam. Ainda ouvi a Ora dizer: “não, nada a ver”. Depois que já tinha tomado seus tragos e nós ainda mais alegres, me contaram do que se tratava. Roca tinha perguntado se eu estava com alguém, se era um “caso” de alguma das duas. Com a negativa, com sua lógica ligeira, deduziu: é gay!

- Disse-me. Bá!! nada pessoal. Desculpe-me.

- Sem problemas.

- Sabe como é, néeee?. Hoje tá tudo bagunçado.

Com aquela alegria toda ainda refleti. Bar é um lugar de metamorfoses. Chegamos, sentamos, pedimos uma bebida e ainda somos operários, professores, médicos, empresários... no final, sem exceção, somos todos filósofos. Pensei na polis, nos pré-socráticos, com toda aquela tragédia, regados a um farto vinho e inspirados por Dionísio. De fato, isso é coisa antiga. Só estamos seguindo a tradição, embora com deuses diferentes e novas tragédias.

- Sabe? - Ora se dirigindo a mim – eu, Santinha e Roca não temos filhos. Eu e Roca já não podemos mais engravidar. A Santinha ainda tem uns dois anos pela frente. Estou tentando convencer a Santinha sobre uma coisa e queria a sua opinião.

- Claro! Pode falar.

- É assim. A gente quer que a Santinha fique grávida e divida a criança com a gente. Seríamos três mães da mesma criança.

Tomei mais um gole, para clarear mais a idéia.

- Espera aí, Ora, primeiro será preciso encontrar um pai que aceite três mães. Já pensaram e resolveram esse detalhe?

- Já sim. Queremos alguém que seja amigo, conhecido de longa data, que já tenha seus filhos, resolvido nesse aspecto. Afinal, vai ser apenas um doador.

- Humm entendi. Refleti um pouco. Olhei para os lados. Tomei mais um gole do meu Red. Quando voltei o olhar, estavam assim paralisadas e me olhando...

- Ainda tenho dúvidas – Santinha me olhando, como que para me salvar – pois eu é que vou gerar a criança, vou carregar na barriga, enjoar, engordar e outras coisas mais que dizem por aí. Depois disso tudo será que vou mesmo querer dividir?

- Queria saber de vocês três outro detalhe. Vocês vão morar juntas com o bebê?

- Roca – quase gritando – vocês estão muito preocupados com detalhes bobos. Era preciso primeiro ter o bebê já na barriga. Teriam nove meses para acertar os detalhes. Se ficarmos aqui pensando demais, o tempo fértil de Santinha vai diminuindo e nada de perspectiva de um bebê.

- Espera, Roca! Disse Ora me sondando, querendo entender os mínimos detalhes da minha expressão facial. Deixe ele falar. Afinal um possível pai nos fará perguntas parecidas.

- Acho que vocês deviam procurar um advogado. Bem, é melhor não! É capaz dele querer interditar vocês. O maior risco é a Santinha não querer depois dividir o bebê... que tal mudarmos de assunto? Esse assunto não combina com bebida, quem sabe amanhã não achamos uma idéia mais razoável?

Concordaram.

Santinha me contou que a idéia de Ora está motivada por causa de seu novo hóspede. Na verdade são três. Um casal jovem que tem um bebê de mais ou menos um ano e meio. Desde então não pára de pensar na hipótese de ter um para sempre. A questão é como convencer a Santinha. Convencer a Roca foi mais simples.

Santinha e Ora são amigas desde os treze anos. São como irmãs. Talvez mais que isso, porque tem um respeito e admiração invejáveis.

Ficamos um pouco em silêncio observando o lugar e reparando mais na música. Roca encarou um cara que vinha passando. Com aqueles olhões não escapava nada. Por isso que às vezes disparava um “o que você disse?”, porque o pescoço não parava quieto no lugar. Lá e cá, lá e cá... “nossa!! Você viu, Ora?”... não deixava de ser divertido. Acho que ela estava naqueles dias...

Em uma dessas viradas, parou me olhando e disse:

- o que você acha do orgasmo feminino?

- Hã??? o que disse?

- Isso mesmo. Assim, naquela hora, no meio do tesão, da loucura... o orgasmo. O que acha disso?

- Você quer saber minha opinião sobre a sensação de vocês, o êxtase, as contorções, etc? Ou o que ele representa, a sua função, porque ele vem e porque não vem?

- Quero saber qualquer coisa! Quero apenas que me fale. Fale algo!!!

- Saí com fulano outro dia – interrompeu Ora – aquilo sim é que é orgasmo.

- Não ando tendo sorte, Santinha falando do seu último encontro.

Ufa!! Escapei! Não que seja em si um problema, mas falar sobre isso naquele momento não me agradou.

Continuaram com as trocas de impressões (digitais ou não) sobre a liberdade sexual. O papel da mulher na conjuntura política e social. A mulher no poder. Observei bem e é bom ouvir isso diretamente delas, sem tradução por terceiros, ou melhor, por homens.

Assim, meio sem querer, como se estivesse pensando alto, Santinha falou, olhando para o lado, “na verdade toda mulher quer um homem para amar e ser amada, uma casa, filhos e tentar ser feliz”. Parou um silêncio frio naquela mesa. Pensei: “não difere do que os homens querem”. Tantas palavras e discursos para esconder o “simples”. Talvez venha daí esse gigantesco desencontro que notamos pela rua. Um monte de gente só e armada até os dentes. Isso, até o dentes, por onde passam as palavras.

Mas não podemos negar que as mulheres estão cada vez melhores. Decidem o que querem, fazem da vida a sua escolha, viajam, trabalham, são mães conjuntas, andam sozinhas por aí ou aos bandos. Analisam seus processos de orgasmo – não aceitam mais ficar sem ele. Nós, homens, estamos ficando para trás?

Pensei em pedir mais uma dose. Desisti. Elas estão muito altas. Vou me controlar por aqui. Pedi água. Na hora que se passou, com muita água, fui tomando o controle. Roca e Ora se levantaram para ir ao banheiro. Eu e Santinha corremos para ajudar a situação. As duas estavam com uma crisesinha de labirintite.

É melhor pedir a conta.

Fomos embora. Acompanhei a Santinha até a casa de Roca. A Ora iria ficar por ali também. Nos despedimos.

Em casa, no escuro, deitado e olhando para o teto, veio aquele sono bom, aos poucos, intercalado por bebê dividido.. bocejo... três mães numa mesma casa...viro de lado... santa padroeira... inconsciência...diga-me logo!! Orgasmo... orgasmo.... oráculo.

J.H.R

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

No Mato – sem preço...

Lá por volta dos meus vinte e poucos anos...

Não parava de ir ao sítio. Um lugarzinho maravilhoso. A uns 110 km da capital, 30 km de Cristalina. Passei centenas de feriados, finais de semana e também várias férias de trinta dias.

Apesar de já ter entrado na fase adulta, parecia que ainda prolongava por ali aqueles tempos de infância. Tinha de tudo um pouco. Centenas de galinhas, vacas, bois, cavalos, burro, carneiros, cabras, porcos. Lembrava a fazendinha de George Orwell, porém com poucos bichos andando em duas patas.

Tamanho era o pomar que vivia-se sem fome. De jaca a caju, de manga a mexerica, de caqui a graviola. A revoada de pássaros e cantos em todos os cantos. Manoel de Barros sabe bem disso: “Concerto a céu aberto para solos de aves”.

Vivia enfurnado pelos matos, vendo o rio, os pastos e perambulando o dia todo. Tinha aquela mata ciliar com o rio belíssimo. Água muito fria, transparente, com muitas pedras e corredeiras. A pura paz.

Inventei, em certa época, de pescar em lugar mais distante, com mata mais fechada. Eram seis horas de pescaria todos os dias. Pescar em rio quase sem peixe é um exercício de meditação. A mente voa. Imagina-se o fundo do rio, escuta-se um pássaro por horas. Bichos que estralam gravetos. Cutia que aparece do outro lado do rio, lenta, precisa. Família de jacus caminhando com seus pintos por cima das costas. Jibóia crescida subindo o rio sinuosamente. De vez em quando uma lontra. Visões de anos de solidão, pescando ali em silêncio e sem companhia. Certa vez resolvi levar comida para os peixes. Amarrava espigas de milho, jogava quirela de milho e também mandioca amarrada. Quando as capivaras não comiam tudo, ia aumentando o movimento da pescaria. Coisa pouca, mas no fim de semana a turma adorava aquilo tudo frito com a cerveja. O peixe era um pretexto para ficar ali, perdido, integrado e interagindo. Gostava tanto que ficava no meio daquelas tempestades e raios, só para ver estiar e vir aquele sol brilhando tudo em volta. É impressionante como após uma chuva os sons da mata duplicam. Parece saudação.

Algumas vezes vinham alguns comentários sobre o paciente pescador. Apesar de tantas horas, no final da semana, parecia até uma pescada razoável. Um dia de manhã, veio o garoto vaqueiro tirar leite. Comentou comigo que um amigo dele, do vilarejo, queria pescar comigo. Perguntou se eu não me importava. Disse que não – claro que não! Perguntei quem era o garoto. Apresentou-me. Travava-se do Euclides, conhecido como Crid. Tinha apelido de Costinha por causa do nariz avantajado. Fez recomendação de esquecer o apelido. Pedi-lhe que avisasse ao tal amigo para vir no dia seguinte.

Por volta das onze horas, estava ali debaixo das jaqueiras, ao lado de um tronco largo, antigo, caído, onde havia um verdadeiro húmus. Com um enxadão e pote, pegando minhocas. Aquilo era bater e minhoca pular para todo lado. Ficava cercado de um exército de galinhas, galos, frangos e pintos. Era incrível a coragem deles. Não admitiam tal iguaria não ser dividida.

Já com o pote quase cheio, em quantidade dobrada, visto que dividiria com o novo companheiro, ouvi um “tarde!”. Virei-me meio assustado porque estava concentrado e vi um senhor. Devia ter quase setenta anos. Calça de tergal lisa, camisa de manga comprida, botinas e um cinto apertando uma barriga avantajada. Apesar do chapéu de palha enorme, percebi alguns cabelos brancos, porque eu estava agachado, olhando para ele. Reparei aquela armação de óculos bem antiga, grossa e as lentes me pareceram bem embaçadas. Dia muito quente.

    Respondi:

    - Boa tarde! Pois não.

    - Eu sou o Crid. Vim pescar.

    - Prazer Crid. Meu nome é...

    - Já sabia, disse-me.

    - Você não trouxe suas coisas de pesca?

    - Sim. Trouxe. Deixei no caminho. Vô pegá lá na ida.

Peguei minha mochila, a vara de pescar e o saco de quirela dos peixes. No meio do caminho, ele entrou no mato e veio com sua vara de pescar que, pelo tamanho, dava para chegar quase até ao meio do rio. Reparei que ele vinha também com um saco daqueles de farinha de trigo que vemos nas padarias. Era tão alvo que parecia que nunca alguém o havia tocado. Vinha dependurado nas costas, parecendo o de um papai noel. Tinha um volume razoável. Logo imaginei que ele devia estar com alguma informação desencontrada. Para encher aquele saco de peixe, só com uns duzentos anos pescando ali.

No caminho foi me contando algo a seu respeito. Tinha dirigido o caminhão de lixo na Grande São Paulo por quase 40 anos. Agora vivia de sua aposentadoria. Tinha os seus problemas de pressão, deficiência cardíaca e uma alegria contagiante. Tinha vindo morar perto dos parentes. Não pude deixar de reparar que ele ouvia pouco, por isso falava muito alto.

Chegamos no local de pesca. Um poço verde, espelhado, com certa sombra daquelas árvores antigas. A água fazia a curva ali e descia mansamente. Como o lugar era apertado para dois, e também porque a vara de pescar do Crid era imensa, daria problema na certa se ficássemos juntos. A uns dez metros tinha uma grota, seca, com um tronco de árvore para atravessar para o outro lado. Ele aceitou atravessar, muito ressabiado com o vão abaixo. Com pouco equilíbrio chegou do outro lado e ficou lá satisfeito.

Coloquei minhas coisas um pouco atrás de mim, como de costume, para evitar que caíssem no rio. Preparei o anzol e dei uma olhada nas minhocas. Estava tudo certo. Atravessei pelo tronco da árvore e levei o pote de isca para ele, que tinha esquecido. Quando retornei e fui jogar a isca na água, vi que ele já estava pronto. Daí começou uma cantoria no maior volume: “minhoquinha, minhoquinha vai lá no fundo e traz um peixinho para o narizinho.” Não resisti e caí na maior risada. Nunca tinha ido pescar com tamanha barulheira. Para ele era como se estivesse sussurrando.

Enfim começou a pescaria. Nada de peixe. Passados uns dez minutos, levo o maior susto com ele me gritando:

    - Ei fulano! Quer um pedaço de rapadura???

    Respondi baixinho que não queria.

    - Quer ou não quer???

    Ele insistiu simplesmente porque não ouvia.

    Gritei que não.

    - Aqui não tem peixe não! Nem belisca!

A essa altura eu já estava rindo muito daquilo tudo. Hoje é dia de interagir e viver a presença dele – pensei.

Em meia hora compreendi perfeitamente o que aquele saco de farinha de trigo tinha por função. Ofereceu-me rapadura, queijo, uma dose de pinga, algumas espigas de milho assado, um pouco de farofa, uma cabaça com água, garrafinha térmica com café, algumas laranjas e limas e também alguns pedaços de pão. Como ainda não havia completado nem duas horas que tinha almoçado, vinha respondendo que não.

    - Ei fulano!! Você não é de comer, não?

    Respondi que tinha almoçado.

    - Gritou ainda mais forte que ele também.

Rindo muito daquela cena, fui para o outro lado e sentei ao lado dele. Abri o saco do papai noel e tomei um gole de pinga, mordendo um pedaço de queijo. “Ainda bem – disse-me ele – pensei que era fresco! Sujeito aborrecido de cidade.”

Voltei para o meu lugar e fiquei observando a paisagem. Tranquilo, tudo numa paz enorme. Ainda refleti – quando poderia imaginar que estaria aqui, nesse exato momento de um tempo universal, com alguém tão especial e cordial. Não foi uma fração de segundo do pensamento, ouvi uma barulheira e ele gritando muito. Estava dependurado e preso no meio de umas galhadas da beira do rio. Não sei como, mas estava meio de cabeça para baixo. Eu tive de sentar porque não aguentava de tanto rir. Foi só um instante para ele começar a me xingar de tudo quanto é nome. Corri para o outro lado, deitei-me no chão e ofereci-lhe a mão, porque era muito pesado e teria que arrastá-lo pelo braço esquerdo, até que ele pôde firmar o pé direito num galho e chegar firme no barranco. Ele estava branco de susto e muito nervoso.

    - Desculpe-me, não sabia que o senhor não sabia nadar.

    - Eu sei nadá sim!

    - Então porque estava gritando daquele tanto?

    - Porque meus braços estavam presos e tinha uma aranha enorme com as patas no meu narizinho!!

Rolei de rir no chão daquela mata. Sabe quando se começa e não consegue parar? Ele não aquentou e começou a rir muito também.

Acabou a pescaria. Ficamos ali conversando. Ouvi muitas história sobre ele dirigindo o caminhão na Grande São Paulo e a saudade que sentia dos tempos de quando era jovem. Também falou da esposa que deixou para trás e tantas outras coisas que me senti tão pequeno diante dele.

Pegamos o trilheiro de volta para o sítio. Na porteira, ao me despedir dele, me fez uma pergunta: “você é bobo assim desse jeito sempre? Rindo assim sem parar?” Não teve jeito. Sentei na beira da estrada e chorei de rir.

Muitas vezes depois, regressando ao sítio novamente, tinha sempre um presente para mim. Um cristal lapidado, uma rapadura, um casco de tatu. Tudo presente do meu amigo Crid.

Passados esses anos todos, estou aqui me recordando dele. Nunca mais o vi.

Saudade de você, Crid!

J.H.R

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Escondendo a saudade...

Como de costume, fui passear numa livraria. Circulei por vários corredores, folheando obras aqui e ali. É sempre a mesma história, como economizar e não levar tudo o que não se pode ler. Além do mais, hoje em dia as livrarias tem te tudo. Quero dizer, é tudo multimídia. Eu sou multimídia? Depois vou ver no espelho... papo estranho, deixa para lá.

O fato é que ao sair fui lá tomar o meu expresso favorito. Onde se vai hoje é pura elegância. Não sei se sou eu que sou muito simplório, mas as cadeiras e mesas são ergonômicas, toalhas bem postas e uma Iluminação com lâmpadas que nem sei o nome - mas parece que ficamos mais bonitos debaixo delas. Espaços amplos, teto transparente, xícaras especiais. Bem, mas o café é realmente delicioso.

Enquanto estou ali na primeira xícara e reparando o ambiente, também reparo as pessoas. Uma correria em pleno feriado. Tanta gente sozinha, a começar por mim. Rostos e olhares perdidos. Dá a impressão que atravessam a gente e também as vitrines. Lembra do Chico: “...nos teus olhos também posso ver, as vitrines te vendo passar ...na galeria..”

Daí saio da perplexidade com um sonoro: “e aí, mano velho!!!”

Era meu amigo Zeca com a Maria. Zeca é aquele tipo bom de papo. Anarquista graças a Deus. Maria é aquela delicadeza em pessoa. Terapeuta da alma.

- Está perdido aí?

- Sim, estou!

- Pode-se ver.

- Maria e aquele seu olhar hipnótico como sempre. Ela às vezes parece aquelas “chupetas” de bateria de carro. Liga uma na outra e há aquela transfusão de energia. Dela ninguém esconde nada.

- Oi meu amigo – disse-me Maria. Quanto tempo não nos vemos. Por onde andavas?

- Assim-assado. Por ali e por aqui. Estou terminando um projeto e não tenho tido muito tempo. Na verdade, não poderia falar para ela que ando trancado em casa, pensando no nascimento dos aminoácidos.

Zeca chamou o garçom e pediu um café também. Maria pediu um conhaque duplo. Sempre me surpreendo com isso. A impressão que tenho é que ela tem um motor gigante na cabeça. Muitas peças e engrenagens. É preciso aquecer aquilo tudo de uma vez.

Zeca disparou logo o seu dessabor.

- Porra! Dessa vez não vou pagar multa por não comparecer às eleições. Fiquei com medo dos caras voltarem. Que me perdoem Proudhon, Malatesta e Bakunin. Na boa, aquela maquininha de votar é até legal. Nunca tinha visto uma daquelas assim de perto. Minhas mãos estavam suadas e o coração disparado na hora de apertar o “confirma”. Hesitei por alguns segundos que me pareceram a eternidade. O garotão fiscal ainda tirou onda comigo: “alguma dificuldade aí, velhinho?”. Não mandei ele para aquele lugar, porque senão daria em porrada, polícia, aquela correria toda e tal. Tudo aquilo que eu adoro. Você sabe. Tenho mesmo é saudade da barricada de 1848. Então, apertei o botão e fui embora, sem antes dar um esbarrão violento no moleque que me chamou de velhinho. Nem doeu, ele era bombado de academia. Para falar a verdade, doeu mesmo foi em mim.

- Sim, sim... eu entendo, fui amenizando.

- E você, Maria – eu disse – depois dela virar de uma vez aquela dose dupla de conhaque. O que me conta de novo? Está namorando?

- Namorando!!! - assim meio abalada e vermelha com o conhaque, me respondeu. Por acaso tem homem nessa cidade?

- Como? Surpreso com a resposta.

- Quero dizer – ela consertou. Bem, vivemos em tempos diferentes. Sujeitos em franco processo de individuação. Um certo egocentrismo engolido por um desejo de nada. O egoísmo é tamanho que nem serve para troca de fluidos.

- Hã?? Troca de que?

- Ela emendou. Bem, eu como profissional posso dizer. Como todo mundo hoje em dia faz terapia e todo mundo é resolvido, porque ninguém mais está autorizado a falar de seus problemas, de ter uma conversa mais aprofundada, então resta muito pouco para se dizer um ao outro por aí. A ordem é “vamos rir e falar o trivial”, no meio daquela barulheira infernal, meia luz e aí ninguém olha ninguém e não se tem um clima. Desculpe-me, ainda sou uma mulher romântica. Nada disso de pegar na minha mão e dizer: “vamos ali rapidinho no motel ou no banheiro mesmo”. Eu quero um companheiro, educado, gentil, que lê, pensa e reflete sobre a vida, que seja amigo, atencioso e que construa algo comigo no meio dessa vivência caótica.

- Zeca, como sempre, disparou. Isso tudo aí é homem mesmo? Queria era ver um sujeito desse no meio da revolução, fuzil na mão, quebrando pau no peito, rolando ribanceira abaixo...

- Amigos, calma! Calma! O mundo suporta toda essa diversidade. Tolerância e convivência harmônica. Tem para todo mundo (como sempre começo mentindo para mim mesmo e convenço os outros sobre as minhas mentiras sinceras). O pior é que funciona.

- Maria acabou me perguntando sobre a Bia. Achei que poderia escapar da situação, mas não deu. Já ouviu dizer que, quando temos uma ferida, tudo cai ou aperta nela?

- Vocês dois vão salvar o mundo, disse-me Maria. Todo mundo comenta e eu até exemplifico em minhas sessões. Vocês se ouvem. Olham nos olhos e existe um respeito profundo. Não há ofensas à personalidade. Numa relação dessas impossível falar em traumas. Não me importaria de perder o emprego por causa do exemplo de vocês.

Pensei. Está me provocando a falar. Será que ela sabe algo? Respirei fundo e contei até mil. Nunca consegui vencer o meu desejo de falar.

- Pois então, meus amigos! Estou em cima da hora. Preciso ir.

- Espera aí, disse-me, Zeca. Quero saber se vai aparecer à reunião do movimento.

- Sim, estarei lá!

- Dessa vez chamamos um internacional, vai nos falar sobre autogestão e processo legislativo com participação direta.

- Humm muito bom! Não perderei.

- Manda um beijo para Bia, disse-me Maria.

Paguei o café e me dirigi ao carro. Fui caminhando com o Escafandro e a Borboleta debaixo do braço. Pensando que ainda teria de encarar aquele apartamento vazio, mordendo o coração para não ligar para a Bia. Ainda me veio aquele toque de seu perfume e (acho que isso é mediúnico) olhei violentamente para os lados. Sim, sofri. Todo mundo sofre. Uma semana sem vê-la. Toda hora olhando as mensagens no celular. Pulando feito um doido quando o maldito toca...

Sim. Somos todos ridículos quando estamos amando.

Será que todos aqueles olhares perdidos nas vitrines são por amor?

J.H.R

Derrete-se um horizonte alaranjado
Em olhos marejados
Não sei se vejo pelo copo que bebo
Ou se a maré está para cor ou corpo
Ou se bebi demais
Ou são os olhos que me vêem
Ou se fui bebido pelo horizonte
Sei-não-sei
De[belo]

J.H.R

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Mundo Pequeno - Manoel de Barros

I

O mundo meu é pequeno, Senhor.
Tem um rio e um pouco de árvores.
Nossa casa foi feita de costas para o rio.
Formigas recortam roseiras da avó.
Nos fundos do quintal há um menino e suas latas
maravilhosas.
Todas as coisas deste lugar já estão comprometidas
com aves.
Aqui, se o horizonte enrubesce um pouco, os
besouros pensam que estão no incêndio.
Quando o rio está começando um peixe,
Ele me coisa
Ele me rã
Ele me árvore.
De tarde um velho tocará sua flauta para inverter
os ocasos.

II
Conheço de palma os dementes de rio.
Fui amigo do Bugre Felisdônio, de Ignácio Rayzama
e de Rogaciano.
Todos catavam pregos na beira do rio para enfiar
no horizonte.
Um dia encontrei Felisdônio comendo papel nas ruas
de Corumbá.
Me disse que as coisas que não existem são mais
bonitas.

IV
Caçador, nos barrancos, de rãs entardecidas,
Sombra-Boa entardece. Caminha sobre estratos
de um mar extinto. Caminha sobre as conchas
dos caracóis da terra. Certa vez encontrou uma
voz sem boca. Era uma voz pequena e azul. Não
tinha boca mesmo. “Sonora voz de uma concha”,
ele disse. Sombra-Boa ainda ouve nestes lugares
conversamentos de gaivotas. E passam navios
caranguejeiros por ele, carregados de lodo.
Sombra-Boa tem hora que entra em pura
decomposição lírica: “Aromas de tomilhos dementam
cigarras.” Conversava em Guató, em Português, e em
Pássaro.
Me disse em Iíngua-pássaro: “Anhumas premunem
mulheres grávidas, 3 dias antes do inturgescer”.
Sombra-Boa ainda fala de suas descobertas:
“Borboletas de franjas amarelas são fascinadas
por dejectos.” Foi sempre um ente abençoado a
garças. Nascera engrandecido de nadezas.

VI
Descobri aos 13 anos que o que me dava prazer nas
leituras não era a beleza das frases, mas a doença delas.
Comuniquei ao Padre Ezequiel, um meu Preceptor, esse gosto esquisito.
Eu pensava que fosse um sujeito escaleno.
- Gostar de fazer defeitos na frase é muito saudável, o Padre me disse.
Ele fez um limpamento em meus receios.
O Padre falou ainda: Manoel, isso não é doença,
pode muito que você carregue para o resto da vida um certo gosto por nadas…
E se riu.
Você não é de bugre? – ele continuou.
Que sim, eu respondi.
Veja que bugre só pega por desvios, não anda em estradas -
Pois é nos desvios que encontra as melhores surpresas e os ariticuns maduros.
Há que apenas saber errar bem o seu idioma.
Esse Padre Ezequiel foi o meu primeiro professor de
gramática.

VI
Toda vez que encontro uma parede
ela me entrega às suas lesmas.
Não sei se isso é uma repetição de mim ou das lesmas.
Não sei se isso é uma repetição das paredes ou de mim.
Estarei incluído nas lesmas ou nas paredes?
Parece que lesma só é uma divulgação de mim.
Penso que dentro de minha casca
não tem um bicho:
Tem um silêncio feroz.
Estico a timidez da minha lesma até gozar na pedra.


Mundo Pequeno
do livro “O Livro das Ignorãças” – ed. Civilização Brasileira.

domingo, 31 de outubro de 2010

"Não quero nunca renunciar à liberdade deliciosa de me enganar." Che Guevara

sábado, 30 de outubro de 2010

Quase Intuição...

Sábado de manhã...

Um pouco de ressaca. Música bem baixinho. Casa escura, só de luz, das outras coisas, não.

Lembrei-me que normalmente era o dia de resolver aquelas pequenas coisas que lotam as ruas e o comércio. Afazeres de mercado, sapataria, oficina de carros... quando estamos lá é que pensamos o quanto a vida é trivial e também boa, embora um pouco sem sentido.

Desisti e não fui. Outro dia resolvo. Achei melhor beber água e um analgésico. Abri a janela e coincidentemente estava tocando It is the evening of the day. I sit and watch the children play. Smiling faces I can see, But not for me.” Isso me remeteu à conversa de ontem. Um amontoado de apaixonados falando de Heráclito e Nietzsche. De relance pude ver aquela boca com um batom suave... foi ontem... como sempre acontece pensamos sem querer: não se pode beijar duas vezes a boca de um mesmo corpo...

Sabe? Vou descer e dar uma corrida. Fiz um aquecimento em meio aos cartazes e gritos de “votem em...” Deu um desgosto. Embora as crianças não sorrissem para mim, o dia vinha ensolarado dentro de mim. Como é difícil e desagradável delegar poder. Por que vim assim desse jeito? Vou perguntar para a minha mãe. Nos seus 83 anos e sendo mãe, tenho certeza que ela sabe tudo.

Já são 16 horas. Estou tomando um café com broa de milho. Coisas lá das Minas Gerais. Fiz a pergunta para minha mãe. A resposta foi tão simples, assustadora e metafórica: “você parece uma vela. Derretendo e sozinha. Logo apaga.” Tudo bem. Vou confessar! Engasguei com o café e a broa. Alguém gritou: “São Brás!!!!” Só este santo mesmo para me acudir!

Percebeu porque os homens têm medo mulher? Estou exagerando? Está bem – é só um receiosinho...

Já anoiteceu e não quero beber e também não quero o burburinho da rua. Já sei. Vou rezar. Que religião e igreja vou escolher hoje. Hummmm ... tem uma igreja Batista lá pelo número 900. Da última vez tinha um baixista lá de primeira, junto com um órgão bem melancólico. Aquilo era quase um blues.

Acertei! Salvei-me do dia. Boa noite. Amém.


J.H.R