sexta-feira, 29 de outubro de 2010

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Visceral

Sabe-se lá o que é acordar com um “extra! Extra! Extra!: Vive-se!?" Não sei, vivi. O jornaleiro estava aqui, dentro, morador, imperceptível. Anunciava quase uma ordem, ao ponto dos olhos se abrirem, amargamente, diante de uma cena infinitamente vivida: o quarto, a cama, os quadros, os livros e os santos na cabeceira.

Era preciso movimentar. Apesar de tudo repetir: o forte! Soava vazio e impróprio. Mas não deixava de ser um preenchimento bloqueador de tantos pensamentos e recordações que insistiam em voltar repentinamente, fazendo do viver aquele amontoado de cenas de um passado inexpressivo, com dores e fugas.

Mais uma vez acendia a chama, água e açúcar no bule, pois sem café e um cigarro a vida não continua. Acendia também um incenso, pedindo que todo aquele pauzinho perfumado trouxesse tudo que é abençoado para perto, sensível, sentido. Daí, como de costume, coloquei música para falar comigo. Vinha o meu xará gritando por mato mato e mato, naquele seu Amor de Índio. Foi preciso correr para pular de música. Algo ancestral me persegue, solicitando o nu, água, floresta e aquele cheiro forte de bicho... Ai!! aquele escritório, computadores e “bom-dia!”...

Na hora do batismo do banho, rezei. Deus, dê-me a simplicidade da vida que se vive apenas. Do corpo envelhecendo naturalmente, para que o próximo venha, venha e venha.. Nada de valores, pensões, bolsas e o falar absurdo.

Tomei o elevador e encontrei com Bia. Naqueles seus dois anos de idade. Um falar puro e me olhando nos olhos, como a me lembrar do jornaleiro. Ela me disse: “estou feia hoje porque estou sem brinco.” Era preciso estar elegante para carregar os seus baldinhos e pazinhas para a areia. Ah o futuro! Futuro! Pensou a minha cabeça velha e ranzinza, e levou bronca. Nem sei quem foi que brigou e quem levou bronca. Insano.

Pena o trabalho ser tão perto. Vinha aquele som de reggea gostoso, com aquela marcação de guitarra, uma voz convidando “vamos fugir, para outro lugar, baby, vamos fugir...” Admiravelmente, desviei do caminho e deixei algo me dirigir. A mente sem dono, com todos personagens, fotos, amores, livros, romances, tudo mediado e imediato num devir. “Conheça a ti mesmo”; “torna-te o que tu és”. Esses filósofos em meio a uma enxaqueca!

O telefone toca. Sim, estou atrasado. Já vou! Toca novamente. “Lembre-se, hoje é dia. É preciso comprar isso e aquilo.” Em breve vão inventar implante de celular. É muito preciso, justo, necessário. Enfim, cheguei ao trabalho. Dei um “oi” com os olhos e comecei a ganhar a fração daquele dia que morei, dormi e comi. Aos poucos o jornaleiro foi encerrando a sua edição. Tive uma notícia extra. Hoje faríamos hora-extra.

J.H.R

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

DUPLO MORTAL

DUPLO MORTAL

Vera Americano


Postar-se
no desvão
entre dois argumentos,
por dois segundos.


Respirar
economicamente
entre duas palavras,
duas ondas
muito crespas.


Decidir
em sânscrita ilusão:
viver
ou deixar para mais tarde.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Venha! Estou bem aqui! Eu te abrigo no meu desamparo!

J.H.R

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Boa Viagem!

Separação brusca
Natureza ou fúria?
Geologia
Lá se foi a África
Apartada de nós
União brusca
Natureza Humana, fúria...
Ligação
A nós
Em sangue
Nos resta um:
Oxalá, maínha

"Sempre sei, realmente. Só o que eu quis, todo o tempo, o que eu pelejei para achar, era uma só coisa - a inteira - cujo significado e vislumbrado dela eu vejo que sempre tive. A que era: que existe uma receita, a norma dum caminho certo, estreito, de cada uma pessoa viver e essa pauta cada um tem - mas a gente mesmo, no comum, não sabe encontrar; como é que, sozinho, por si, alguém ia poder encontrar e saber? Mas, esse norteado, tem. Tem que ter. Se não, a vida de todos ficava sempre o confuso dessa doidera que é. E que: para cada dia, e cada hora, só uma ação possível da gente é que consegue ser a certa. Aquilo está no encoberto; mas, fora dessa consequência, tudo o que eu fizer, o que o senhor fizer, o que o beltrano fizer, o que todo-o-mundo fizer, ou deixar de fazer, fica sendo falso, e é o errado. Ah, porque aquela outra é a lei, escondida e vivível mas não achável, do verdadeiro viver: que para cada pessoa, sua continuação, já foi projetada, como o que se põe, em teatro, para cada representador - sua parte, que antes já foi inventada, num papel..." Grande Sertão: Veredas - J. G. Rosa