sábado, 22 de outubro de 2011

Pele de Neve

Dois pares de olhos 
Essência jasmim
Cubos de gelo em limão e malte
Fios de ouro além do ombro
Frio róseo em nuvem
Palmeiras dançando
Um perfil de estátua em cor de alma
Cheiro de infância
Relance de castanhos no fundo daqueles verdes
Fluem imagens
Imaginamos silêncios
Que dormimos no sempre...

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Bisbilhotando a mente...


O pensamento é a liberdade última de nós, seres sozinhos. Às vezes estamos rodeados de gente e também de barulho, quando nos damos conta de que a algazarra maior vem de dentro. Podemos ter tudo, todos os sonhos, todas as maravilhas que supostamente o mundo pode nos dar. Não importa. Estaremos sozinhos na mente.

Muitas vezes me dou conta desse absurdo de que tenhamos de nos bastar. Não seria nada mal ter um de reserva. Aquele que assume e nos dá um descanso. Não importa o risco, mas somente o alívio. Passam-se anos sendo o que se é. Toda a filosofia, todos os evangelhos e demais livros sagrados vem pregando para se conhecer, vir a ser o que se é etc., mas o dispositivo que nos livra de nós mesmos ainda não veio. Você que está lendo deve estar pensando: “que ridículo!”. Tudo bem, você sabe de si aí dentro. Agüente!

Esse poder reflexivo do humano que toda a psicologia já estudou e vem estudando parece se resumir todos os dias e, para a vida inteira, como ser feliz e suportar os traumas e os desenganos. Existe de tudo: relaxamento, yoga, alongamento e até um porre de vez em quando. O fato é que, em última instância, deve-se aguardar o dia derradeiro e ir enganando o que se passa por dentro.

Às vezes uma música toca e desperta em você uma tristeza imensa. De outro modo, morde-se uma fatia de pão e tudo flui em prazer e uma lembrança incerta de alegria e felicidade. Aprendemos desde cedo a sermos seres feitos de planejamento. Planeja-se tudo. Vivemos de um plano. Algo que sempre vai vir e que parece que nunca chega. É um consenso que trazemos no código a impossibilidade de satisfação última, como único meio de garantirmos a evolução e progresso. É absurdo demais. Além disso, é preciso evoluir em sabedoria e moralidade.

Vira e mexe essas coisas me vem à mente. Passo dias com esse “x” esperneando dentro de mim. Todo mundo deve se lembrar daquele trecho da música: “quero carneiros e cabras pastando solenes no meu jardim...”. Por que não? Eu quero a mente intensa, mas não quero estar rodeado de compromissos e coisas. Sempre tem alguém que vem lhe dizer: “você foge da vida e de encarar o mundo”. Mais do que nunca entendo o conceito de rebanho. Qual é o problema de ficar fazendo o seu béeeeeeeee sozinho? No final das contas é você quem vai dormir contigo todos os dias. É ali que a enxurrada vem te pegar, que custo a acreditar que a gente caiba num corpo tão restrito. Ah sim, castigo! Deve-se também aprender a tirar prazer da dor. Não agüento isso. Depois vem a Esperança... Quanta coisa etérea é preciso criar para suportar. Entenda-me bem, da Arte não falo! Do amor carnal, que é o único que ainda alcanço, poderia falar, mas sei que esbarraria na convivência. Tenho medo, não. Só não gosto de antecipar.

Desculpe-me você que está lendo. Pensamento é assim mesmo. Um vai e vem sem fim. Infelizmente ainda não encontrei uma lógica de existir. Tenho lógica para muitas coisas. Não atrasar, pagar as contas, ser eleitor, contribuinte, etc. Como é fácil ser “normal”. Quero mesmo é uma lógica para a minha anormalidade. Pode rir à vontade. Um dia quase fingi que a única coisa que entendia bem de mim era ser anormal. Mas foi tão fugidio que perdi essa linha de entendimento. Às vezes essa linha me vem e vou tecendo, tecendo e quase no nó final, aparece uma gata e corre com o novelo. Um dia eu vi essa gata! Bichana maldita. Desculpe: bendita!

Pense bem? Não tem um único bicho humano nesse mundo que não viva de instabilidade emocional. Altos e baixos, idas e vindas. Risos e choros. Daí vem a dialética e tudo mais. Não ligo a mínima para isso. Dentro de mim é que quero algo para sempre. Um amigo sempre me fala do Raul: “é chato chegar a um objetivo num instante...” Raul e Raul, isso é com ele. Quero mesmo é o meu. Mas qual?

De tudo quanto já procurei só me rendi de certa forma a entender que existem vidas antes dessa. Nada e nada mesmo que já sondei parece ter uma coerência como essa reencarnação tem para mim. Seria um dom magnífico virar de lado e dizer: “assume aí, meu amigo. Vou respirar um pouco e já volto!”. A história é outra...

O fato é que volto novamente para dentro da mente. Eu e eu, ninguém vigia, ninguém atinge e, nessa bagunça toda cotidiana, ainda arrisco em chamar isso de liberdade última. Um dia ainda vou aprender fluxo de consciência, porque ainda estou aqui escrevendo para alguém imaginário. Ah! Um dia escreverei para mim. Aí sim, terei medo!

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Disco Colorido

Um ser gira dentro de mim
Digo um para não nomear
Tão intensas são as voltas...
Formam feixes que projetam no horizonte
O Universo devolve em cores
Em feixes diferentes
O carrossel se forma e convida
Porque a loucura colore e fascina

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Mono Logos



Um sonho acabando e a sensação de uma música tocando. A música era ruim. Toda vez que a faxineira vai ela mexe no rádio-relógio e coloca naquelas rádios terríveis. Bati forte no danado, que silenciou. Queria ter silenciado também a mente. Não dá, o cérebro manda e ela obedece. Dias desses estava lendo sobre isso. A mente é uma abstração do cérebro... mas isso é outro papo...

Será porque nos perdemos na cama em certas manhãs? Perdemos mesmo os sentidos ou eles não se encontram. Aquele diálogo monólogo persistente. Que farei? Aonde vou? Quem me espera? Tenho fome? Quero um cigarro em jejum! Sim, quero, mas fico tonto... Onde ela está agora? Será que pensou em mim. Sou eu quem põe a mesa e faço o café. Que merda! Sim, uma prece. Falar com o EU etéreo que me entende. E começo: "Deus... aqui estou novamente..." e percebo que não estou mais. Minha cabeça já está girando o mundo, nas lembranças, nos desejos, nos afetos... às vezes sonho ser um deserói de Dostoievski. Sei que sinto isso, mas é um desejo burro de pequeno burguês.

Um pássaro canta lá fora, no seu dialeto que quase entendo. Abro as janelas e digo "olá" para o sabiá. Ele sabe e eu também. Às vezes reclamo com ele quando insiste na estrofe "trintaeoitotrintaeoito". O mundo todo está delirante, sol a pique, todo mundo mastigando, alguns fazendo amor. É o caso do sabiá e as suas cantadas infinitas, anunciando que em breve vem chuva e primavera. Ando mal de cantadas. Na verdade nunca cantei. Sou apenas a pauta. Sou feliz assim? Não faço idéia...

Quero um ensaio no chuveiro. É lá que me preparo para certas falas, atos e de como farei desenhado esse meu mundo aparente. Sou sim um artista! O problema é que o cenário nunca se realiza. Já fiz de tudo e sempre é diferente. Farei isso na hora tal. Tomo um café e desligo, mas se insistir finjo ser despretensioso. Dá tudo errado! Sempre deu. Acabo sendo eu mesmo e isso desanda de vez... (você está rindo????) eu também! Ainda é um remédio tradicional e caseiro. Vem de dentro, não se paga nada.

Novamente encontrei a moça que limpa o elevador. Ela sempre vem com aquele "meu fi, o senhor parou de falar sozinho?" Ainda não, dona. Nem sou eu quem fala, é só a boca. Ela emenda: "isso é coisa ruim, devia tratar disso. Arrumar uma mulher e casar de vez". Sempre conclui essa frase com uma gargalhada que o elevador balança... Daí eu penso nela novamente. Vivo me torturando com ela. Aquele cabelo longo, hoje deve estar com aquela bata azul, batom rosa claro e aqueles brincos gigantes que eu adoro... Tá bom! Já sei, a coisa anda ruim e estou meio fodido com isso. E daí!!! Todo mundo tem o seu querer um pouco de dor... eu não minto. Também tenho! Afinal, é o meu "mono logos". Quem é que vai adivinhar? A vida privada burguesa é tão boa!!! A gente pode com todas as porcarias humanas. Tudo começa em querer ser herói... é uma graça mesmo! Que ando pensando! A dona deve ter razão. Isso deve ser coisa ruim.

O cara da vaga ao lado da minha acaba de dar um foda-se para alguém. Daí eu construo a história na minha cabeça. Eu sei... sou um desocupado, mas tenho mania de história e imagens, também penso na trilha sonora. Se ligo o rádio e está naquelas merdas de estações que só tocam notícias, penso nos Titãs com aquela sonora: "Porrada!! Porrada!" Não sei por que penso nisso. Sou uma merdinha burguesa. Peraí!!!! Merdinha, não! Sou até legal. Todo dia essa guerra no corpo. Quem é quem? Aqui nunca rola um equilíbrio permanente. Mas como todo bom sujeito, o mocinho vence. Que vergonha!!!! Hã??? Não enche, segura a onda aí!!!!!! (esse EU que só fica no "não" é um porco maldito que não sai da lama). Retomo a caneta dele...

Dei play e vou de Wonderful Tonight. Adoro me lembrar dos beijos. Acho que é o maior presente de todos. Ninguém ganhou um Nobel por isso. O sujeito que inventou o beijo era um genial homem da idade das pedras. Tenho certeza que esse homo sapiens já sabia falar. Beijo é algo elaborado demais e é preciso contar a alguém. Não tem jeito. Tudo acaba em beijo, para o bem ou para o mal. Bom dia, minha linda! Beijo e desejo bom trabalho...

Amanhã, continuamos esse papo. Sinto que cresço nessa multiplicidade. Não sei aonde vou, mas é bom ir e também voltar. Um drink comigo sozinho é tão profícuo. O que? Sei lá, entende... Hermeticamente.

J.H.R

terça-feira, 5 de julho de 2011

Quase

Um ponto de luz raiando no fim
Ela pensa...
O horizonte acorda e se separa do mar
Eu entendo...
Por cima tudo espelhado e fingindo paz
Ela percebe...
Nos altos e baixos de ondas a ferocidade
Afogo-me...
No mastro, a antiguidade zelada de gaivotas
Ela desespera e pede socorro
Lá embaixo, no escuro.. trilha sonora de baleias
Eu... um blues do mar!...
Agora, braços dados, cabeça no chão...areias...
Cinema de estrelas... uma pisca.
Ela responde...
O branco frita em sal, espraiando
Puxo a rede...
O amor?
Ela e eu?
Na maresia... nos objetos... na ferrugem
No para sempre... que vem!

J.H.R

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Hoje
Sem querer
Toquei o inexpressivo
E foi com uma batida de coração...

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Eu da coisa do Eu

Sou uma coisa
Sem garra
Sem ventosa
Sem presa

Sou a coisa
Com gênero
Com efeito
Efêmero

Sou como coisa
Passiva
Estável
Redimida

Sou descendente da coisa
Que sabe de si
Que espera de mim
A coisa em si

Da coisa que sou substantivo
Sem nome
Próprio ou coletivo
Achado ou perdido

Sou a coisa desejada das coisas
Coisa adjetivo
objeto coisa
Coisa objetivo

Sou a coisa química
Atirada e suprida
Animada e tímida
Coisa anímica