terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Silêncio

É tão vasto o silêncio da noite na montanha. É tão despovoado. Tenta-se em vão trabalhar para não ouvi-lo, pensar depressa para disfarçá-lo. Ou inventar um programa, frágil ponto que mal nos liga ao subitamente improvável dia de amanhã. Como ultrapassar essa paz que nos espreita. Silêncio tão grande que o desespero tem pudor. Montanhas tão altas que o desespero tem pudor. Os ouvidos se afiam, a cabeça se inclina, o corpo todo escuta: nenhum rumor. Nenhum galo. Como estar ao alcance dessa profunda meditação do silêncio. Desse silêncio sem lembranças de palavras. Se és morte, como te alcançar. É um silêncio que não dorme: é insone: imóvel mas insone; e sem fantasmas. É terrível - sem nenhum fantasma. Inútil querer povoá-lo com a possibilidade de uma porta que se abra rangendo, de uma cortina que se abra e diga alguma coisa. Ele é vazio e sem promessa. Se ao menos houvesse o vento. Vento é ira, ira é a vida. Ou neve. Que é muda mas deixa rastro - tudo embranquece, as crianças riem, os passos rangem e marcam. Há uma continuidade que é a vida. Mas este silêncio não deixa provas. Não se pode falar do silêncio como se fala da neve. Não se pode dizer a ninguém como se diria da neve: sentiu o silêncio desta noite? Quem ouviu não diz. A noite desce com suas pequenas alegrias de quem acende lâmpadas com o cansaço que tanto justifica o dia. As crianças de Berna adormecem, fecham-se as últimas portas. As ruas brilham nas pedras do chão e brilham já vazias. E afinal apagam-se as luzes as mais distantes. Mas este primeiro silêncio ainda não é o silêncio. Que se espere, pois as folhas das árvores ainda se ajeitarão melhor, algum passo tardio talvez se ouça com esperança pelas escadas. Mas há um momento em que do corpo descansado se ergue o espírito atento, e da terra a lua alta. Então ele, o silêncio, aparece. O coração bate ao reconhecê-lo. Pode-se depressa pensar no dia que passou. Ou nos amigos que passaram e para sempre se perderam. Mas é inútil esquivar-se: há o silêncio. Mesmo o sofrimento pior, o da amizade perdida, é apenas fuga. Pois se no começo o silêncio parece aguardar uma resposta - como ardemos por ser chamados a responder - cedo se descobre que de ti ele nada exige, talvez apenas o teu silêncio. Quantas horas se perdem na escuridão supondo que o silêncio te julga - como esperamos em vão por ser julgados pelo Deus. Surgem as justificações, trágicas justificações forjadas, humildes desculpas até a indignidade. Tão suave é para o ser humano enfim mostrar sua indignidadee ser perdoado com a justificativa de que se é um ser humano humilhado de nascença. Até que se descobre - nem a sua indignidade ele quer. Ele é o silêncio. Pode-se tentar enganá-lo também. Deixa-se como por acaso o livro de cabeceira cair no chão. Mas, horror - o livro cai dentro do silêncio e se perde na muda e parada voragem deste. E se um pássaro enlouquecido cantasse? Esperança inútil. O canto apenas atravessaria como uma leve flauta o silêncio. Então, se há coragem, não se luta mais. Entra-se nele, vai-se com ele, nós os únicos fantasmas de uma noite em Berna. Que se entre. Que não se espere o resto da escuridão diante dele, só ele próprio. Será como se estivéssemos num navio tão descomunalmente enorme que ignorássemos estar num navio. E este singrasse tão largamente que ignorássemos estar indo. Mais do que isso um homem não pode. Viver na orla da morte e das estrelas é vibração mais tensa do que as veias podem suportar. Não há sequer um filho de astro e de mulher como intermediário piedoso. O coração tem que se apresentar diante do nada sozinho e sozinho bater alto nas trevas. Só se sente nos ouvidos o próprio coração. Quando este se apresenta todo nu, nem é comunicação, é submissão. Pois nós não fomos feitos senão para o pequeno silêncio. Se não há coragem, que não se entre. Que se espere o resto da escuridão diante do silêncio, só os pés molhados pela espuma de algo que se espraia de dentro de nós. Que se espere. Um insolúvel pelo outro. Um ao lado do outro, duas coisas que não se vêem na escuridão. Que se espere. Não o fim do silêncio mas o auxílio bendito de um terceiro elemento, a luz da aurora. Depois nunca mais se esquece. Inútil até fugir para outra cidade. Pois quando menos se espera pode-se reconhecê-lo - de repente. Ao atravessar a rua no meio das buzinas dos carros. Entre uma gargalhada fantasmagórica e outra. Depois de uma palavra dita. Às vezes no próprio coração da palavra. Os ouvidos se assombram, o olhar se esgazeia - ei-lo. E dessa vez ele é fantasma. (Clarice Lispector)

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

No avião tem um corpo voando dentro do voo;
No trem tem coisas correndo velozes nos olhos;
Nos olhos tem uma lágrima boiando e batendo nas margens;
Nas margens marcas de unhas no seco;
No seco, meu deserto...

J.H.R

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Quem já não parou um dia e se disse: "cansei de ser quem eu sou"? É preciso mudar! Quem dera que a reconstrução ou reforma necessitassem apenas de pregos, martelos e serrotes. O pior é quando, nas relações amorosas, queremos no outro aquela peça que melhor se encaixa em nosso quebra-cabeça.

Na noite passada tive um sonho. Vi um vulto passando do corredor para a copa. Como sempre aquilo me gelou. Apesar do medo, uma força me empurrava para ir lá descobrir. Nesses poucos passos o pensamento que me dominava era o de acuar o invasor e não acolhê-lo. Ao dobrar do corredor para a copa, estava lá no canto um corpo adulto, de pé e sem rosto.

J.H.R

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Toda a sanidade é a abstinência de respostas.

J.H.R

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Raro
Rola
Rala
Um "sei"
Na sombra do Eu
Que já vai...
No ralo
Bêbado
Virando "N'Eu"

J.H.R

domingo, 23 de janeiro de 2011

HOMEM SOLITÁRIO ABSURDO.

Por favor, não quero incomodá-lo. Apenas fiquei te observando. Mais uma vez te vi nos poucos lugares que ainda é visto, feliz ou infelizmente é uma livraria em um shopping elegante e moderno. Lá vinha você, pensativo como sempre, naquelas alamedas estonteantes quando se depara com uma fila indiana imensa. Tratava-se de crianças carentes passeando naquele mundo de fantasia. Elas vinham cercadas por “monitores” na frente, no final e por todos os lados. Vi que passou bem perto e reparou aqueles olhares esbugalhados, como que drogados. Sim! Só alguém absurdo poderia imaginar o que imaginou: eles estão concentrados. Lembra daquelas cenas reais dos campos de concentração? Isso mesmo! Aqui nessa cidade não existe favela, apenas periferia. Eles se concentram lá! Já o haviam avisado para ficar longe da verdade, mas algo sempre esteve em você que a “verdade” se apaixona. Sabe qual é a verdade de um homem solitário absurdo? Não queira saber. É um diálogo frequente na cabeça, um amontoado de perguntas e respostas. Imagina-se de tudo. Parece uma preparação para algo que vai vir inesperadamente. Alguém, um ato, uma cena, uma pergunta... já imaginou um Raskólnikov passeando por um shopping? Que espécie de castigo é esse que se impõe? Estar apartado do mundo? Necessidade de clareza e honestidade? Necessidade de racionalizar tudo? Não se sabe ao certo, mas ele acredita que as mulheres são aptas a dar uma opinião. A sensibilidade ajuda. Inesperadamente conheceu uma dessas mulheres. As mulheres carregam sempre consigo uma proposta. Por ser um homem tímido e míope, faz sempre as piores leituras. São piores porque são puras. Os heróis solitários são puros essencialmente. Mas essa foi um pouco diferente, quis educá-lo em suas palavras. Disse-lhe para que “deixasse de ser esse filho da puta de santinho. Que não existe coisa pior e mais nojenta que um homem de bem. Essa coisa de misericórdia, de olhar puro diante do lixo e, principalmente, com um discurso quase impossível de ser superado. Mulheres gostam de cafajestes, trapaceiros, que apimentam a vida e colorem o mundo com suas nuances de banditismo” (Ahh essa doce mulher! Ela fica tão linda de rabo de cavalo e sua farda miliciana!). É preciso jurar! Aprender!. O homem solitário absurdo é, por conceito, um filósofo. Nem ele sabe o porquê e para quê. É por isso que ele é um párea. Talvez isso tenha ficado mais claro ao ler um daqueles emails que todos já leram, onde se diz que uma estudante interpretou Camões dizendo para ele largar de babaquice e arrumar uma mulher e fazer muito sexo. Como é que foi preciso uma criança para ligar a luz para a transvaloração moderna? Voltando a Raskólnikov: o mundo é extraordinário! Como já foi jurado acima, continua se prometendo, o homem absurdo, que será parte da imbecilidade. Vai crer na mídia, nos padres, nos pastores, na moda e no mercado. Afinal, talvez tenha chegado mesmo o momento de esvaziar a taça e encher o pote. O pote de personalidades variáveis, pois a cada dia todos matam seus personagens no final da noite, com ou sem choro. Assim fará suas preces, para que tenha criatividade para manter-se vivo. Afinal ser "um" todos os dias não é fácil.

J.H.R