quarta-feira, 16 de março de 2011

Às vezes é melhor só pensar...

Quando atender ao telefone já será tarde. Tudo bem que esteja aí se vingando nos braços de outro. Coisa mais doce e saudável que é um amor acabar. Você bem sabe que não lamento nada, mas estava ligando para tirar algumas dúvidas. Será que fiz isso ou aquilo mesmo? E você, realmente fez tudo aquilo? Às vezes ia dormir com a impressão que vinha de uma guerra, de uma necessidade de um vencer o outro. Sempre achei que era uma espécie de problema a ser resolvido. Realmente a metáfora do cabide e do cabideiro se aplica ao nosso caso, não existe cabide dependurado no ar e vice-versa. Essa é que é a real simbiose, uma total dependência emocional que indica a morte próxima. Morre-se minguando... Será verdade mesmo que a gente se acostuma inclusive com o que é ruim? São os mistérios que envolvem a memória e o controle do prazer. Disse acima que não lamentava nada, abro agora uma exceção: ver as músicas maculadas dessas lembranças. Músicas, desculpe-me por esse meu lado sinestésico. Pensando melhor, obrigado por não atender. Nunca sei o que dizer...

J.H.R

sábado, 12 de março de 2011

Carta virtual para a amiga Nancy e a sua resposta...

Brasília/São Paulo ou no meio do caminho. 12 de março de 2011.

Minha querida amiga Nancy,

Por mais uma vez estou em uma cena real provocada pelo sono. Caminho por ruas escuras em busca de um local onde seria ministrada uma palestra. Tão importante que somente uma pessoa poderia falar e somente uma a ouvir. Ao entrar por aquele galpão amplamente iluminado, de luz desconhecida, me deparo contigo em um púlpito. Abaixo apenas uma cadeira, a qual me sento. Ao sentar-me me vem à mente a palavra: réu!

Sem me cumprimentar, você inicia o discurso. Breve, porém direto. Acusa-me. Obriga-me. Condena-me a proferir uma palavra. Tal palavra deveria ser a tradução perfeita para um mundo sem o mal, vilão, dor, dúvida, doença, descrença, medo, angústia, loucura, ódio, pecado; com a perpetuação de uma felicidade sem altos e nem baixos por uma infinidade que a mente sequer supõe. Respirei fundo e pronunciei. Tal foi o impacto que você desmaiou. Para minha surpresa, um corpo etéreo levitou dentro do seu corpo original, segurou em minha mão e disse: criança.

Estou aqui por horas e horas fazendo o possível e o impossível para lembrar-me a palavra que foi dita por mim, mas acredito que só você poderá desvendá-la.

Assim, nesse minuto que estou em vigília, te convido para um novo encontro. Sim! Lá! Você bem sabe. Use a capa que quiser usar, pois sei que virá novamente de dentro de si. Estarei lá para lhe dar a mão. Continuo. Réu!

Fraternalmente, do seu amigo JH.

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Lugares e não lugares ou no meio do caminho. 12 de março de 2011.

Querido amigo, poetapensador JH

Teu sonho é a reinvenção de todas as tuas películas, do que tece tua alma.

Existe a leitura além do compreender-te nesse cenário, existe a palavra libertária.

A palavra que esgota o ‘’demasiadamente humano’’ que ocupa um corpo.

Porque o verbo te consome muito mais que o tempo da ação verbal, muito mais que todas as propostas da vida, o verbo te devora, mas a palavra é intrínseca.

Embora não caiba no pensamento, a palavra é tangível.

Essa fustigante busca ao ‘’inominável’’ já me rendeu noites de insônia...

Essa palavra que abre todas as outras palavras e revela-te um caminhar mais fulgente encerrando tuas vigílias, escapa-me a todo instante pelos poros por onde respira-se a poesia contida nos teus aforismos.

E bem sabes que logo ali na frente sou eu quem permaneço imóvel e réu.

Assim sendo, toda sentença que eu proferir, vã e filosoficamente, torna-se inópia, mísera e pálida diante dos teus anseios...

Posso por hora, apenas recomendar-te cautela nessa cobiça...

Essa palavra tão definitiva não pode ser inocentada pela beleza plástica, nem por conduzir-nos a uma plácida encenação de paz.

Essa palavra inteira que supre toda a felicidade, massacra o mistério que nos sustenta.

Ora, caro amigo foi da tua boca que ouvi tantas vezes que :

‘’O mistério só existe porque não cabe na individualidade’’.

Assim, compartilho dessa tua angústia enviando-te um placebo, um fio de letras miúdas para que possa montar em mosaicos essa tua voraz capacidade de sentir muito e compreender pouco...

Na cumplicidade de nossa amizade,

Ntakeshi.


segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

YO NO SOY YO


Soy este
que va a mi lado sin yo verlo;
que, a veces, voy a ver,
y que, a veces, olvido.
El que calla, sereno, cuando hablo,
el que perdona, dulce, cuando odio,
el que pasea por donde no estoy,
el que quedará en pié cuando yo muera.

Juan Ramón Jiménez

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Silêncio

É tão vasto o silêncio da noite na montanha. É tão despovoado. Tenta-se em vão trabalhar para não ouvi-lo, pensar depressa para disfarçá-lo. Ou inventar um programa, frágil ponto que mal nos liga ao subitamente improvável dia de amanhã. Como ultrapassar essa paz que nos espreita. Silêncio tão grande que o desespero tem pudor. Montanhas tão altas que o desespero tem pudor. Os ouvidos se afiam, a cabeça se inclina, o corpo todo escuta: nenhum rumor. Nenhum galo. Como estar ao alcance dessa profunda meditação do silêncio. Desse silêncio sem lembranças de palavras. Se és morte, como te alcançar. É um silêncio que não dorme: é insone: imóvel mas insone; e sem fantasmas. É terrível - sem nenhum fantasma. Inútil querer povoá-lo com a possibilidade de uma porta que se abra rangendo, de uma cortina que se abra e diga alguma coisa. Ele é vazio e sem promessa. Se ao menos houvesse o vento. Vento é ira, ira é a vida. Ou neve. Que é muda mas deixa rastro - tudo embranquece, as crianças riem, os passos rangem e marcam. Há uma continuidade que é a vida. Mas este silêncio não deixa provas. Não se pode falar do silêncio como se fala da neve. Não se pode dizer a ninguém como se diria da neve: sentiu o silêncio desta noite? Quem ouviu não diz. A noite desce com suas pequenas alegrias de quem acende lâmpadas com o cansaço que tanto justifica o dia. As crianças de Berna adormecem, fecham-se as últimas portas. As ruas brilham nas pedras do chão e brilham já vazias. E afinal apagam-se as luzes as mais distantes. Mas este primeiro silêncio ainda não é o silêncio. Que se espere, pois as folhas das árvores ainda se ajeitarão melhor, algum passo tardio talvez se ouça com esperança pelas escadas. Mas há um momento em que do corpo descansado se ergue o espírito atento, e da terra a lua alta. Então ele, o silêncio, aparece. O coração bate ao reconhecê-lo. Pode-se depressa pensar no dia que passou. Ou nos amigos que passaram e para sempre se perderam. Mas é inútil esquivar-se: há o silêncio. Mesmo o sofrimento pior, o da amizade perdida, é apenas fuga. Pois se no começo o silêncio parece aguardar uma resposta - como ardemos por ser chamados a responder - cedo se descobre que de ti ele nada exige, talvez apenas o teu silêncio. Quantas horas se perdem na escuridão supondo que o silêncio te julga - como esperamos em vão por ser julgados pelo Deus. Surgem as justificações, trágicas justificações forjadas, humildes desculpas até a indignidade. Tão suave é para o ser humano enfim mostrar sua indignidadee ser perdoado com a justificativa de que se é um ser humano humilhado de nascença. Até que se descobre - nem a sua indignidade ele quer. Ele é o silêncio. Pode-se tentar enganá-lo também. Deixa-se como por acaso o livro de cabeceira cair no chão. Mas, horror - o livro cai dentro do silêncio e se perde na muda e parada voragem deste. E se um pássaro enlouquecido cantasse? Esperança inútil. O canto apenas atravessaria como uma leve flauta o silêncio. Então, se há coragem, não se luta mais. Entra-se nele, vai-se com ele, nós os únicos fantasmas de uma noite em Berna. Que se entre. Que não se espere o resto da escuridão diante dele, só ele próprio. Será como se estivéssemos num navio tão descomunalmente enorme que ignorássemos estar num navio. E este singrasse tão largamente que ignorássemos estar indo. Mais do que isso um homem não pode. Viver na orla da morte e das estrelas é vibração mais tensa do que as veias podem suportar. Não há sequer um filho de astro e de mulher como intermediário piedoso. O coração tem que se apresentar diante do nada sozinho e sozinho bater alto nas trevas. Só se sente nos ouvidos o próprio coração. Quando este se apresenta todo nu, nem é comunicação, é submissão. Pois nós não fomos feitos senão para o pequeno silêncio. Se não há coragem, que não se entre. Que se espere o resto da escuridão diante do silêncio, só os pés molhados pela espuma de algo que se espraia de dentro de nós. Que se espere. Um insolúvel pelo outro. Um ao lado do outro, duas coisas que não se vêem na escuridão. Que se espere. Não o fim do silêncio mas o auxílio bendito de um terceiro elemento, a luz da aurora. Depois nunca mais se esquece. Inútil até fugir para outra cidade. Pois quando menos se espera pode-se reconhecê-lo - de repente. Ao atravessar a rua no meio das buzinas dos carros. Entre uma gargalhada fantasmagórica e outra. Depois de uma palavra dita. Às vezes no próprio coração da palavra. Os ouvidos se assombram, o olhar se esgazeia - ei-lo. E dessa vez ele é fantasma. (Clarice Lispector)

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

No avião tem um corpo voando dentro do voo;
No trem tem coisas correndo velozes nos olhos;
Nos olhos tem uma lágrima boiando e batendo nas margens;
Nas margens marcas de unhas no seco;
No seco, meu deserto...

J.H.R

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Quem já não parou um dia e se disse: "cansei de ser quem eu sou"? É preciso mudar! Quem dera que a reconstrução ou reforma necessitassem apenas de pregos, martelos e serrotes. O pior é quando, nas relações amorosas, queremos no outro aquela peça que melhor se encaixa em nosso quebra-cabeça.

Na noite passada tive um sonho. Vi um vulto passando do corredor para a copa. Como sempre aquilo me gelou. Apesar do medo, uma força me empurrava para ir lá descobrir. Nesses poucos passos o pensamento que me dominava era o de acuar o invasor e não acolhê-lo. Ao dobrar do corredor para a copa, estava lá no canto um corpo adulto, de pé e sem rosto.

J.H.R

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Toda a sanidade é a abstinência de respostas.

J.H.R